O filho do Seu Raimundo

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Escrito por Gustavo Scussel

Que sujeito interessante! Estranho, até. Parecia tão normal desfrutando o tira-gosto no cantinho do bar. Parecia, também, amigável; tímido, quem sabe; isolado, no máximo. Talvez fosse novo no bairro: por isso os frequentadores assíduos logo trataram de incluí-lo na conversa. E foi na primeira resposta que o sujeito se tornou interessante — estranho, até. Respondeu: “Eu me chamo Carlos, sou filho do Seu Raimundo, e eu venho do mundo.”

Todos assistiram Carlos transformar-se em duas pessoas diferentes. Quando declarou “Eu me chamo Carlos”, era um sujeito de média estatura, levemente bronzeado, de nariz bem-feito e faces magras; quando revelou “eu venho do mundo”, era roliço, loiro, lembrava um alemão de férias em Inhotim, sem protetor solar e sem contas para pagar.

Susto não causou porque os frequentadores assíduos do bar duvidaram do quanto haviam bebido. Mas diante da circunstância, passaram a ter duas certezas: beberam pouco, mas o pouco surtira efeito. Farofa!

O freguês mais antigo do bar indagaguejou:

“Carlos, o que tá acontecendo com o seu corpo?”

“Com o meu corpo?”, devolveu, olhando e tocando a si mesmo. “Nada.”

E, de fato, não aconteceu nada.

“É que há pouco o senhor…” As palavras morreram na dúvida.

“Eu… ?”

“Aí! Aconteceu de novo!”

E aconteceu mesmo: um novo homem atrás do bigode. E que bigode!

Certeza mantida: beberam pouco, mas o pouco surtira efeito. Mais farofa — faz favor!

Buscaram testemunha: Dona Elvira, viúva e dona do bar. Imparcial, justa, boa de negócio.

“Olha, Dona Elvira! Olha que o Carlos vai virá.”

Carlos olhou Dona Elvira, Dona Elvira olhou Carlos. Não vira nada.

“Virá o quê?”, bradou, impaciente, Dona Elvira.

“Virá mais uma!”, entendeu um outro, engolindo a segunda dose de conhaque, tão embriagado quanto um bebê submetido ao teste do bafômetro, e sendo acompanhado por todos os demais — inclusive Dona Elvira.

O assunto morreu, Carlos pagou a conta e voltou para o mundo.

Gustavo Scussel


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