1.
Seguiam juntos no carro rumo ao trabalho quando, em uma rua estreita a quinze minutos do bairro onde moravam, um deles disse, como se falasse consigo mesmo:
“Sempre achei curiosa aquela casa, onde há uma lâmpada azul na área e que está sempre acesa.” Como não recebera resposta, insistiu a participação do amigo. “Alguma vez reparou naquela casa?”
O amigo, concentrado ao volante, olhou de relance para o outro. Provou a própria saliva. Àquela hora da manhã — pouco mais de sete horas — raramente conversava.
“Reparei”, respondeu, sucintamente. “Mas não é sempre que a luz está acesa.”
2.
O assunto ressurgiu somente no dia seguinte, no mesmo caminho.
“E então? Quando é que a luz está apagada?”, interrogou Rômulo.
Benedito, sempre mais propenso ao silêncio pela manhã, hesitou para responder. Ainda assim, respondeu:
“À noite.”
A gargalhada de Rômulo teve uma única nota, como costumam ter as risadas que se manifestam diante de algo irônico.
“Qual o propósito de se ter uma lâmpada acesa durante o dia, e desligada durante a noite?”
Benedito hesitou novamente. Queria evitar o assunto, mas o que sabia sobre a lâmpada agitava-se dentro de si.
“Não sei”, disse, por fim.
3.
No dia seguinte, quando passaram pela casa da lâmpada azul, Rômulo chamou a atenção do amigo:
“Reparou? Reparou que a luz está apagada?”
O amigo havia, sim, reparado — e, quando reparou, chegou a desacelerar o carro enquanto passavam pela frente da casa.
“Sabe por que está apagada?”, atiçou Rômulo. “Por que ontem eu acertei a lâmpada com uma pedra.”
Benedito quase pisou no freio, tamanho fora o seu susto. De qualquer modo, a hesitação na velocidade contínua do veículo foi sentida por Rômulo, que imediatamente pressionou:
“O que sabe sobre essa casa? Está claro que ali há algum segredo e que você o conhece.”
Pelo corpo de Benedito percorreu um frio incomum. E diante desse súbito descompasso interno, não apenas decidiu desconversar, como também mudar aquela rota a partir do dia seguinte.
“Não há nada. Mas me assusta que alguém possa vandalizar uma lâmpada da casa de um desconhecido assim, tão gratuitamente.”
Rômulo riu, mas a risada foi de pura vergonha.
4.
Rômulo precisou tomar um táxi no dia seguinte. Se tivesse pressentido que o atraso de Benedito fosse se transformar em falta, teria tomado um ônibus, mas como esperou e esperou e esperou, torcendo para que o amigo aparecesse de repente e desculpando-se pelo atraso, restou-lhe o táxi. E também no trabalho voltou a experimentar aquela sensação de espera entediante e esperançosa, e novamente deu-se conta de que não era um atraso, mas uma falta concreta.
Para voltar para casa, Rômulo tomou o ônibus. Assistia pela janela a paisagem da cidade onde morava passar por ele sem pensar em nada quando, de repente, o ônibus começou a dar alguns solavancos de motor até, por fim, encontrar-se inerte e rodeado por uma fumaça escura e de cheiro carregado que escapava pela traseira do veículo. O motorista pediu que todos descessem, por motivo de segurança, e que aguardassem o ônibus seguinte da rota ou um novo ônibus — o que quer acontecesse primeiro, embora, por experiência própria, pudesse antecipar aos passageiros que a primeira possibilidade era, na verdade, a única.
Rômulo encostou-se na parede de uma casa e consultou o relógio de pulso. Depois, avaliou onde encontrava-se e olhou o céu. Bastaram-lhe alguns poucos segundos para abandonar a ideia de espera pelo próximo ônibus e iniciar a caminhada rumo a sua casa. Sabia e sentia que era capaz de chegar mais depressa do que se esperasse o próximo ônibus e em pleno horário de pico das seis da noite. Enquanto fazia o caminho, decidiu passar pela rua estreita da casa da lâmpada azul. Quando aproximou-se da casa, diminuiu o passo e olhou bem para a lâmpada que, supôs, ainda devia encontrar-se quebrada. Enganou-se: a lâmpada havia sido trocada e estava acesa. Observou-a por um tempo, até que o bipe de seu relógio Casio soou marcando sete horas da noite. No mesmo instante a luz se apagou e, no curto intervalo necessário para que os olhos de Rômulo se ajustassem à escuridão do alpendre da casa, viu, por trás da cortina, uma quantidade perturbadora de cabeças estranhas e de olhares fixos nele, desaparecendo todas, em um milésimo de segundo, logo depois.
5.
Rômulo fez o restante do caminho até sua casa em um ritmo bem acima do que estava habituado e, quando entrou em casa, pingava suor. Estava prestes a contar para a mulher sobre o que presenciara assim que ela surgiu na sala, mas interrompeu a si mesmo ao ver, na sequência, a esposa de Benedito. O semblante dela o preocupou.
Rapidamente tomou conhecimento de que Benedito havia saído de casa na noite anterior dizendo que tomaria uma cerveja com Rômulo. No entanto, as horas se passaram e Benedito não retornou. Como a esposa confiava no marido e em Rômulo, cogitou que Benedito tivesse excedido na bebida e que Rômulo o tivesse levado para casa, uma vez que todos sabiam que Benedito não era bem-vindo em casa quando estava de fogo, pois tornava-se chato demais.
Doeu dizer a verdade — de que ele, Rômulo, não fora contatado pelo amigo na noite anterior — e ver o rosto da esposa do amigo tornar-se ainda mais sombrio. E doeu ainda mais ter dito a verdade sem sequer ter suavizado as palavras. Afinal, sem fôlego e ainda trêmulo, como poderia ter refletido melhor sobre a resposta?
Despediram-se e Rômulo foi para o banho. Primeiro deixou a pele queimar sob a água quente, depois fez o contrário. Quando saiu do chuveiro, estava novamente prestes a contar para a esposa sobre as cabeças que vira espiando-o pela janela da casa da lâmpada azul, quando ela o desarmou dizendo:
“A Normira saiu daqui suspeitando de você. E, perdoe-me por dizer isso, amor, mas eu também.”
6.
Estava insone. Três coisas ocupavam-lhe a cabeça.
A primeira: a quantidade de cabeças e olhos pavorosos que havia visto atrás daquela janela da casa da lâmpada azul.
A segunda: a mentira e o repentino sumiço de Benedito — amigo, vizinho, carona de todas as manhãs.
A terceira: a desconfiança inédita da própria esposa.
Depois que Normira fora embora, Rômulo, profundamente surpreendido e perdido, perguntou para Franciana, sua esposa, quais razões havia para que ela também desconfiasse dele.
“Benedito disse para Normira que você vinha envolvendo-se em um assunto que não te dizia respeito”, retrucou secamente Franciana, na ocasião.
E a conversa que tiveram antes de irem se deitar, desenrolou-se da seguinte maneira:
“E que assunto seria esse?”
“Benedito não contou para ela. E se contou, ela não quis contar para mim.”
“Alguma vez dei razão para duvidar de mim?”
“Não, Rômulo, jamais.”
“Então!”
“Mas a vida é assim: as pessoas podem mudar de repente.”
Rômulo levou as mãos à cabeça.
“Quer dizer, então, que Benedito mente usando o meu nome, desaparece de repente, e sou eu quem merece sofrer tal desconfiança? Explique-me, por favor: como isso é possível?”
Franciana suspirou para responder com firmeza:
“Normira disse que o assunto com o qual você estava se envolvendo poderia custar a vida de Benedito.”
Essa conversa ocupava um lugar entre as preocupações de Rômulo mais pela mentira do que pelo teor. Afinal, tinha a consciência limpa e sabia que não se envolvia com qualquer tipo de assunto ilícito, quem diria um assunto que pudesse custar a vida de alguém!
Entre um pensamento e outro, quando o sono fez menção de derrubá-lo, a campainha tocou, uma, duas, tantas vezes quanto a urgência parecia demonstrar naquela insistência arrítmica de quem quer que a tocasse tantas vezes ao lado de fora.
Rômulo e Franciana correram para atender. Entre luzes vermelhas e azuis que vinham do giroflex de uma única viatura de polícia, estava o rosto de Normira, todo retorcido e escorrendo lágrimas.
“Encontraram meu marido! Encontraram meu marido! Tão perto daqui, tão perto! Na calçada… na calçada da rua…”
Rômulo reconheceu o endereço e sentiu as pernas gelarem.
“…mas ele não resistiu! Meu Deus! Meu marido morreu! Meu Deus! Meu marido está morto!”
7.
Depois de todas as respostas dadas com um tipo de clareza e segurança que, admitiu para si mesmo, foram razoáveis, o delegado Flávio recostou-se na cadeira. Depois de um minuto, perguntou para Rômulo:
“A dona Normira disse que suspeitava do senhor. O que acha?”
Rômulo foi sincero: disse que não tinha uma opinião clara sobre a suspeita da vizinha e viúva do amigo, e contou sobre a conversa que tivera com a esposa horas antes.
A madrugada avançava na delegacia. O delegado resolveu repetir uma pergunta para ver se alguma contradição poderia surgir:
“E então, o senhor mexe com alguma coisa? Lembre-se: é melhor dizer agora do que depois, quando descobrirmos.”
Rômulo esfregou as têmporas.
“Não, eu não mexo com nada que possa ser considerado ilegal. Mas se o senhor quiser ouvir uma coisa interessante… Eu conto se o senhor quiser ouvir! Mas já adianto: é absurdo e, ainda assim, é a única coisa que consigo pensar para explicar, talvez, algo que tenha levado Benedito a ter essa opinião a meu respeito.”
O delegado interessou-se e inclinou o corpo para frente, colocando outra vez os cotovelos sobre a mesa e as mãos com os dedos entrelaçados diante de si.
“Sim, quero ouvir. Diga-me, por favor.”
Rômulo explicou brevemente sobre a casa da lâmpada azul e a mudança do comportamento de Benedito. Após ouvi-lo, o delegado Flávio encarou-o por um bom tempo. Depois, chamou outro policial.
8.
Refletiu brevemente sobre a mudança de ar: havia entrado na delegacia como suspeito, ainda de madrugada, e agora encontrava-se solto como testemunha-chave, com o sol queimando os calouros da calvície.
Depois de repetir para o delegado Flávio e o outro policial o que havia confessado, o delegado também confessou algo. Disse que Benedito ainda estava com vida quando chegaram àquela rua. Benedito disse, antes de morrer, algumas coisas. Primeiro, inocentou o amigo (essa parte não havia convencido a polícia — na figura do delegado, claro —, pois algumas pessoas, nos últimos suspiros de vida, falam coisas desconexas), depois deu um recado. O recado dado, conforme lido da caderneta do segundo policial, no entanto, não havia significado absolutamente nada para o delegado e o colega, tampouco para Rômulo. Talvez fosse, conforme o pensamento do delegado, palavras desconexas de alguém nos últimos suspiros de vida. Uma única coisa tranquilizava Rômulo, ao menos por enquanto: o delegado Flávio e alguns policiais investigariam melhor — e especialmente — a casa da lâmpada azul.
Novamente em sua casa, Rômulo recebeu o abraço da esposa e de Normira, que não apenas pediu perdão, como também explicou como o medo fazia as pessoas (ela, no caso) perderem a razão e duvidarem até daqueles que sabiam, com todo o coração, que jamais fariam mal a alguém. Rômulo aceitou tudo e ambos choraram o luto de Benedito, que ainda não poderia ser velado por causa dos procedimentos de perícia.
No mesmo dia, Rômulo recebeu uma ligação do chefe do trabalho. Por lá, disse o chefe, estavam todos muito sentidos pela perda de Benedito; e dadas as circunstâncias, Rômulo poderia ficar em casa dois dias, três, no máximo, se precisasse. O chefe aproveitou o telefonema para falar, também, com Normira, que não havia atendido o telefone da própria casa.
À noite, Rômulo estava insone novamente. A esposa dormia profundamente. Levantou-se e ouviu, do corredor, o ronco de Normira vindo do quarto de hóspedes. Foi para a sala, afundou-se no sofá com os pensamentos confusos, incompletos. Lembrou-se do recado lido pelo policial. Forçou a mente a fim de encontrar algum sentido naquelas palavras, mas nada. Então, pela janela da sala, foi surpreendido por um conjunto de silhuetas humanas paradas diante de seu portão, os olhos levemente brilhantes — como aqueles que vira espiando-o por trás da cortina da lâmpada azul.
9.
Quando a polícia chegou, a rua estava vazia. Rômulo narrou o acontecimento para o primeiro policial a chegar e, depois, para o delegado Flávio, que, após ouvi-lo, sutilmente o afastou dos demais policiais e revelou:
“Antes de receber o chamado, eu estava na casa de que me falou…”
“Encontrou algo?”
“Não. Nada. Não havia nem gente, nem móvel.”
Os dois sentiram, em silêncio, que os fatos que presenciaram somavam-se em uma verdade geral dos acontecimentos. Depois de algum instante de reflexões individuais, Rômulo quebrou o silêncio:
“E a lâmpada?”
“Era azul, como disse.”
“Não. Quis dizer: a lâmpada estava acesa?”
“Sim, estava. Por quê?”
10.
Ao menos outros três despachos correram no rádio das viaturas de pessoas relatando grupos suspeitos parados diante das portas de suas casas. O delegado Flávio dividiu as viaturas, enquanto ele, acompanhado por seu braço direito, e por Rômulo, que praticamente se convidou sozinho, seguiram de viatura rumo à casa da lâmpada azul. Mal o carro passou o primeiro quarteirão, outro chamado no rádio, dessa vez, nominalmente, via “câmbio”. O próprio delegado respondeu e todos ouviram com clareza:
“O corpo do seu caso foi furtado do IML. Câmbio.”
O delegado olhou primeiro para o parceiro, depois para Rômulo. Todos estavam conscientes de que algo muito mais sombrio do que poderiam imaginar estava acontecendo naquele exato instante. A rota foi alterada bruscamente, e o delegado e o parceiro perguntavam-se, atônitos, que tipo de pessoa doente seria capaz de furtar um corpo do instituto.
O legista plantonista explicou ao delegado como descobriu o furto: em suma, checklist de rotina, após a troca de plantões. Dada a rigorosidade com que todos os médicos preenchiam os relatórios de início e encerramento de seus turnos, havia um ponto ainda mais estranho nesse furto, além do furto de um corpo, em si: como o plantonista anterior deveria preencher seu relatório até 30 minutos antes do encerramento de seu turno, e como o plantonista seguinte deveria preencher o checklist de início de turno no mesmo tempo, o corpo fora furtado em uma janela de tempo muito limitada, e menor ainda, considerando os horários das assinaturas desses relatórios.
Souto, o plantonista atual, afastou, com veemência, qualquer suspeita do delegado Flávio de que o legista anterior pudesse ter dado um “jeitinho” no relatório anterior; isso porque, de acordo com Souto, o legista anterior, além de legista e médico, era extremamente metódico. Além disso, muitas vezes — incontáveis, na verdade —, foram os relatórios do legista anterior, Dodô, que esclareceram discrepâncias com outros legistas que, estes sim, haviam tentado dar seus “jeitinhos”, e acabaram demitidos.
O delegado insinuou, diante disso, que talvez ele, o Souto, quem estivesse dando um jeitinho. Souto, por sua vez, foi cirúrgico: se desconfiasse dele, bastava verificar o horário de assinatura de seu checklist, acompanhado pela informação da hora exata que ligara para a polícia, e confirmar, na central, o horário da ligação.
11.
Em nenhuma das ocorrências os policiais chegaram a tempo de encontrar as pessoas estranhas que as vítimas relataram ao ligar para a polícia. Diante disso, e diminuindo a prioridade imediata da ocorrência do IML — “Morto não tem como ir ou voltar sozinho”, disse —, o delegado Flávio retomou a diligência rumo à casa da lâmpada azul, solicitando, ao mesmo tempo, o reforço das outras duas viaturas que vinham o acompanhando nessa noite tão estranha. Ele, seu braço direito e Rômulo, chegaram primeiro. A lâmpada estava apagada. O delegado abriu caminho com a lanterna. Pela primeira vez, Rômulo o vira como um policial de verdade. Antes, tinha a imagem de um policial de filmes americanos: homem gordo, camisa social branca, sobretudo, calça e chapéu de uma única cor (marrom), coldre visível próximo à axila, cigarro sempre aceso; mas o delegado Flávio era atlético, usava camiseta polo, calça jeans e um Kichute que anos antes fora sucesso na Copa do Mundo da Argentina. Em aparência não se assemelhava à imagem policial que Rômulo carregava dentro de si, mas comportava-se como um — inclusive, melhor do que os policiais americanos dos filmes.
O delegado pediu que Rômulo aguardasse na calçada e avançou com cautela. Tinha visitado a casa horas antes e a encontrara vazia, era verdade, mas isso não significava, para ele, que a casa ainda estivesse desocupada. Assim, tinha a postura de um felino prudente, a arma em punho, apontada para o chão, seguindo o rastro de luz da lanterna que ia quase abrindo espaço para ele. Foi assim até a porta, acompanhado de perto por seu braço direito. Abriram-na usando a maçaneta e entraram em sincronia tática. Rômulo assistiu as luzes das lanternas varrerem o lugar, primeiro pelo vão da porta, depois pela janela, a mesma janela onde, dias antes, vira os rostos que ainda estavam marcados em sua memória.
Um minuto depois, o delegado retornou à porta e, iluminando novamente o chão, chamou Rômulo. Tão logo passou pela porta, o delegado o avisou:
“Tome cuidado. Não há móveis na casa, mas, no escuro, você pode tropeçar ou trombar na parede.”
O delegado voltou a andar e, de repente, todo o cômodo estava iluminado. Olhou para trás e viu Rômulo ao lado do interruptor de luz, a expressão vazia como a de uma criança que aguarda uma mínima reação para saber se havia agido de forma correta. Como apenas trocaram olhares, foi Rômulo quem quebrou o silêncio:
“Não havia testado o interruptor?”
“Não, sim, quer dizer…” O delegado acabou rindo. A pergunta havia soado tão inocente — pois, de fato, fora levantada com inocência —, que não conseguiu se defender. A verdade era que, por protocolo, preferia manter as luzes apagadas, assim, nem sequer chegara a experimentar o interruptor.
O investigador Ribeiro retornou de outro cômodo, a postura bem relaxada e estranhando a luz acesa. Depois, perguntou ao delegado:
“Podemos ligar o restante das luzes?”
O delegado, admitindo consigo mesmo a quebra de protocolo, anuiu. Contudo, tão logo o investigador Ribeiro girou o corpo para retornar ao cômodo pelo qual viera, uma sombra enorme e estranha dançou pelo chão. Ele e o delegado imediatamente apontaram as armas para a origem da sombra com precisão: pararam ambos mirando a lâmpada. Um inseto grande a cobria.
“Isso é um escorpião?”, perguntou o delegado. “Olha a cauda! Olha o ferrão!”
“Não, não parece.” O investigador Ribeiro se aproximou da lâmpada. “É uma lacraia. Uma lacraia fulva.”
“E o que é isso?!”
“Um artrópode”, respondeu o investigador. Tinha formação em entomologia e esquecia-se com facilidade que até os termos básicos para ele poderiam ser técnicos para os outros. Assim, prosseguiu: “Um inseto da classe, quer dizer, um inseto parente das centopeias. O problema é que…”
O delegado esperou um instante, mas, não ouvindo continuação, instigou o investigador:
“E então? Qual o problema?”
“Geralmente elas têm, no máximo, três centímetros, mas essa parece ter o dobro.”
“Essas também”, atravessou Rômulo, afastando-se da porta fechada da sala, de onde, por baixo, começava a entrar uma quantidade considerável de insetos iguais em aparência e tamanho.
Enquanto Rômulo afastava-se da porta sem tirar o olho dela, o delegado Flávio perguntou ao investigador Ribeiro se aquele tipo de lacraia era venenosa — o par de ferrões, afinal, certamente levantava suspeita. Diante do “não”, o delegado, que estava logo atrás de Rômulo, assumiu a vanguarda, e, avisando-lhe para o seguir, começou a pisar em cada um dos insetos que conseguiu até alcançar a porta, cada pisada deixando, ao mesmo tempo, uma poça de uma substância nojenta ao redor, e a cauda com a dupla foice erguida estranhamente intacta. Rômulo o obedeceu e pisoteou alguns dos insetos, mas com certa dificuldade, pois teve medo de que um fosse capaz de lhe subir pelas calças. Quando ultrapassaram a guarnição da porta, a luz azul se acendeu. Na rua, uma multidão de rostos os observava.
12.
O delegado apontou a arma e deu ordem para que a multidão ficasse exatamente onde estava. Como fora ignorado, precisou disparar. O tiro acertou em cheio uma testa — o corpo foi ao chão e ninguém, naquela multidão, fez menção de olhar o morto, tampouco de parar ou de correr. Assim, o delegado, Rômulo e o investigador recuaram aceleradamente, respeitando a mesma ordem de saída e fazendo com que Rômulo parecesse uma espécie de figura sob proteção — o que, de fato, havia se tornado.
O investigador assumiu a posição na janela com a arma em punho e o delegado trancou a porta.
“Ribeiro”, iniciou as instruções o delegado, assumindo a posição do investigador na janela. “Pegue o Rômulo e saiam pelo quintal. Assim que eu disparar um tiro, corram até a viatura. Chame reforço e me espere na rua de trás.”
O investigador pôs a mão no ombro de Rômulo e fez um sinal com a cabeça para que o seguisse. Seguiram juntos para o cômodo dos fundos, Rômulo sentindo o coração acelerado e a sensação de que o delegado ficaria em apuros sozinho. Era verdade que não tinha nenhuma proposta em mente naquele momento, mas achava possível que, dentro do plano que estava em ação, que todos os três poderiam executá-lo juntos; ou seja, o delegado não precisava ficar de guarda na janela da sala da casa.
“Ribeiro, o senhor acha que o delega—”
Um tiro cortou a pergunta de Rômulo. Diante do muro que dava para a casa vizinha, recebeu a ajuda do investigador e caiu do outro lado. Logo depois Ribeiro estava ao seu lado ajudando-o a ficar em pé. Juntos, deram a volta pela lateral da casa e chegaram ao portão da frente — uma pequena mureta — e a pularam com facilidade. Outro tiro. Correram rumo à viatura que estava estacionada bons metros de distância da casa da lâmpada azul. Ribeiro deu a partida no carro e, em movimento, chamou reforços. Manobrou até a rua de trás e, depois de alguns segundos, deu um breve alerta sonoro de sirene.
13.
Quase um ano se passou desde os eventos que envolveram a casa da lâmpada azul. Ribeiro foi promovido a delegado; o corpo de Benedito seguiu desaparecido; Normira esteve em depressão por quase meio ano, e havia poucas semanas que dava sinais de melhora após consultar-se semanalmente com uma psicóloga (e a cada dois meses com um psiquiatra, que começava a reduzir as doses de seus remédios).
Rômulo e a esposa se mudaram de casa. Rômulo precisou trocar de emprego: tinha muitas lembranças do amigo e era difícil esquecer os acontecimentos insólitos envolvendo aquela casa. Além disso, carregava uma grande dose de culpa por ter ignorado o recado do amigo. Rômulo e o delegado Ribeiro, a propósito, jamais retornaram àquela casa.
Flávio pediu licença não-remunerada. Ele sim retornou ao lugar várias vezes. Fez questão de ir durante o dia em todas elas, sempre acompanhado por alguns amigos aposentados da polícia. Nenhuma vez teve receio de reencontrar as pessoas estranhas daquela noite — isso se fossem, de fato, pessoas. Na verdade, algo no íntimo assegurava-lhe o contrário: encontrá-los seria impossível. Ainda assim, retornou à casa movido pela curiosidade que guardara acerca do quintal desde a noite de sua fuga para salvar a própria vida.
Todas as casas daquele bairro tinham árvores bem-cuidadas em seus fundos, árvores naturais da região, frutíferas e ornamentais. Contudo, na casa da lâmpada azul, havia apenas terra, um tronco e nenhuma grama. O tronco parecia ter sido queimado havia algum tempo, e carregava sinais de que a árvore que existira antes havia sido morta à força. Validando parte das suas observações, constatou, graças a um dos colegas policiais, que alguém havia jogado óleo de motor em sua raiz.
Aproveitando a pá que fora usada para cavar ao redor da raiz da árvore, cavou o restante do terreno. Todos, depois, pegaram outras pás. Perto do quinto dia, quando o buraco estava grande o suficiente para que uma piscina fosse construída, e quando os colegas estavam prestes a duvidar da sanidade do amigo e começarem a sofrer de dores nas costas (eram aposentados e velhos, e cuidavam da saúde física apenas o suficiente para assegurarem para si alguma longevidade), depararam-se com uma caixa de madeira.
A primeira descoberta restaurou a energia de todos os presentes e assim acabaram encontrando inúmeras outras caixas, todas de madeira, e todas de pequena profundidade, mas grandes o suficiente para acomodarem uma pessoa. E não foi sem um misto de incredulidade e pânico (um pânico curtíssimo, no entanto) que, em todas elas, encontraram pessoas que, ao serem reveladas junto com o abrir da tampa, desfizeram-se como madeira podre, e de onde, ao menos uma dúzia de lacraias fulvas — essas de tamanho normal, menores que três centímetros — correram para fora e barranco acima.
No próprio dia da descoberta, Flávio e os amigos atearam fogo em todas aquelas caixas de madeira, depois aterraram o terreno e o cimentaram. Alguns meses depois, todos eles desapareceram.
Pela manhã, curiosos ainda veem a lâmpada azul acesa.
Gustavo Scussel